
Encontramos os dois “piás” e a “guria” no aeroporto de São Paulo. Os sotaques diferentes entendiam-se sem “bololô”, em uma prosa amistosa no portão de desembarque do lugar. Cada um partiu de um canto. Léo Moço, o campeão, é carioca; Otavio Linhares, terceiro lugar, curitibano; e Daniela Capuano, quarta colocada, mineira. O trio alcançou a final da Copa Barista 2008 e como premiação em comum, conquistou uma visita à Fazenda Recreio, localizada em São Sebastião da Grama (SP), a 280 km da capital paulista, para conhecer de perto o cultivo do café. O prêmio era para os quatro finalistas da competição, mas a campineira Tatiane Rodrigues, segunda colocada, nos “deu um bolo” justificado e não pôde ir.
Gírias típicas de cada barista devidamente compreendidas antes de pegar a estrada, seguimos rumo a um paraíso do café. No caminho, que demora cerca de três horas e meia, o papo flui, assim como as gargalhadas que ecoam no ar devido às muitas histórias - e estórias - de participações em campeonatos e da convivência íntima do grupo. Os mais velhos, Léo e Otavio, pegam no pé da caçula Daniela, que equilibra o ambiente sentando- se entre os companheiros de viagem.

Quando as rodas do carro deixam o asfalto e tocam a trilha de terra, avista-se parte da plantação de café. O alvoroço no veículo é unânime e Léo logo aponta um fruto da variedade bourbon amarelo, que domina a produção da Fazenda Recreio com cerca de 52% dos pés plantados nos 600 hectares da propriedade. Dona Maria Dias Teixeira é hoje quem comanda o patrimônio, ao lado do marido Homero Teixeira e dos filhos Diogo, Cláudio e Daniel Dias. É ela quem nos recebe - de almoço na mesa - e mostra o casarão que abrigou gerações da família.
Após a refeição, com direito a uma segunda rodada dos baristas, Cláudio e Diogo mostram como é feito o beneficiamento do café no local. O reconhecimento do terreno é registrado atentamente por Otavio, que clica com uma pequena câmera os equipamentos e ouve com cuidado as explicações dos irmãos. É que o barista oferece treinamento em Curitiba (PR) para os interessados na profissão, e essas imagens o ajudarão a esclarecer as dúvidas dos alunos. “Os ‘piás’ me perguntam como é determinada coisa e assim fica mais fácil para eles compreenderem”, conta. Há três anos ele não pisava em uma fazenda, apesar de já ter visitado várias outras. Em contato com o campo, parece uma criança em um parque de diversões. Sobe e desce escadas e máquinas e como um desbravador embrenha-se no cafezal.
A partir de 2006, o engenheiro agrônomo Diogo Dias percebeu que era preciso atualizar o maquinário para sobreviver diante das mudanças do mercado cada vez mais exigente. No início foi difícil aplicar novos conceitos e transformar tradições, mas aos poucos conseguiu implantar as ideias para as quais o avô Joaquim José de Carvalho Dias torcia o nariz. Substituições perceptíveis ao longo do caminho percorrido na fazenda, em busca da melhor forma de produzir cafés especiais.
Devido à topografia da região, todo o trabalho na lavoura é realizado manualmente. Neste ano a fazenda completa 118 safras. A colheita reúne 120 funcionários, entre fixos e temporários, e segue de maio até outubro. “É muito importante que a outra ponta do negócio de café, o barista, no caso, conheça como funciona o cultivo do grão que ele maneja. Só assim vai saber como tratar o café e que sabores pode ressaltar para o cliente”, comenta Cláudio Dias.
Para Daniela Capuano, que cresceu entre os pés de café da fazenda da avó, em Minas Gerais, o conhecimento se dá de forma mais orgânica. Ela absorveu da experiência de criança muito do que sabe hoje, mas reconhece que a rotina não lhe deixava perceber certos detalhes da produção cafeeira, o que aprende cada vez que visita uma propriedade como a Recreio.
Diversão não falta durante a estada. Cláudio trouxe do escritório, que fica na cidade de Poços de Caldas (MG), uma máquina de café espresso para que os baristas se sintam em casa. As agitadas capitais - Rio de Janeiro, Curitiba e Belo Horizonte - de onde vieram os visitantes em nada se comparam à tranquilidade do campo. Isto aqui é melhor que estar “em casa”. Grãos frescos, leite de fazenda e cappuccinos de cremosidade impressionante surpreendem os experientes profissionais.
“Conhecer o processo facilita a compreensão do que você serve”, revela Léo Moço. O rapaz doce e falador encanta-se com os frutos que colheu direto do pé. Estudioso e conhecedor de cafés de várias partes do mundo, sente no toque e no cheiro a qualidade do café produzido na fazenda.
Enquanto o sol se põe entre a paisagem do cafezal, a trupe admira da boleia de uma picape a imensidão do trabalho realizado por cafeicultores, do qual também fazem parte os baristas. O dia se faz tarde e está na hora de voltar para o conforto do casarão, ou o lusco-fusco dificultaria a visão na estrada de barro.
Desplugados das “facilidades” da cidade - aqui não tem sinal de celular nem internet -, os baristas se conectam mesmo com a natureza. O jeito é sentar na varanda e papear entre cafés, destilados e cigarros até o sono chegar. Na memória, mais um tanto de aprendizado que ensina que é preciso viver a teoria para vivenciar vitórias. “Vivência. Só assim a pessoa vai ser boa naquilo que se propõe a fazer. Você tem que ler os clássicos, mas é só sabendo como funciona que vai conseguir recriar em cima”, acredita Otavio.
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Ficha Técnica Data de publicação: Edição 24 - Junho/Julho/Agosto 2009 Veículo: Revista Espresso |