Divina Trindade

Foto por Roberto Seba/Café Editora

Nos escritos sagrados, a Santíssima Trindade (Pai, Filho e Espírito Santo) constitui a união perfeita, formando um só Deus. Quando recebeu o nome de batismo, a Fazenda Divino Espírito Santo também representava a junção ideal. Em meio à majestosa beleza da Chapada Diamantina, em Piatã, na Bahia, nascia tímida, mas com um espírito de gigante, a propriedade de apenas 1 hectare.

Na época, 1994, o médico Nelson Xavier Jones havia comprado a terra com o intuito de passar os feriados longe da loucura soteropolitana. Não podendo dedicar-se exclusivamente ao sítio, convidou o cunhado Michael Freitas de Alcântara - um sonhador cujo nome homenageia Michael Collins, um dos primeiros astronautas a pisar na lua. Desempregado, com o apoio da esposa e uma filha a caminho, não hesitou. Para ele, um pequeno passo naquele momento, mas um grande salto para a vida.

Foto por Roberto Seba/Café Editora

Ficaram sócios Nelson e Michael e a parceria seguiu durante quinze anos. O então pedaço de chão estendeu-se a 9 hectares na região do planalto e Michael, que migrou sozinho com a mala e a coragem, hoje toca a fazenda sem o cunhado. No início deste ano, Nelson decidiu vender sua parte ao amigo. A proposta foi logo temida, mas o desafio foi aceito.

Bons frutos

Até pisar em Piatã, Michael nunca tinha trabalhado com café. O aprendizado veio com a participação em congressos, seminários e palestras e com a ajuda de pessoas como o pesquisador Ramiro Neto Souza do Amaral, que indicou o melhor caminho para colher bons frutos.

As pessoas que embasam a tríade divina do café de Piatã já plantaram 62 mil pés de diferentes variedades, como catuaí 144, catucaí 2SL, bourbon, acauã, pacamara, java e obatã, e a graça vem na multiplicidade da colheita, entre os meses de julho e setembro, quando as apanhadeiras colhem cerca de 300 sacas, para a felicidade de Michael, que conhece bem a natureza do grão e conta o segredo do cafezal. “O café é justo. Ele diz: me dê que eu te dou. É assim que funciona.”

Foto por Roberto Seba/Café Editora

A colheita manual é feita a 1.350 metros de altitude. Mais uma das bênçãos do café de Piatã. O clima úmido garante boa temperatura para a maturação do grão e para germinar o solo fértil precisa apenas do adubo orgânico - que vem das cascas eliminadas pelo processamento cereja descascado. “A natureza nos favorece e nós não temos prejuízo”, diz Patrícia Quintela de Alcântara, esposa de Michael, que até pouco tempo também ia para o cafezal plantar e colher. Com a pequena Cecília nos braços, a caçula entre três filhas, fica impossível trabalhar na lavoura, mas Patrícia comanda com firmeza as atividades na fazenda e reconhece a qualidade do grão na xícara, pois até curso de degustação ela tem no currículo.

IR ALÉM

Com tantas maravilhas vindas da terra e do céu, Michael quer aproveitar o bom tempo. Além de ter seu café distribuído por todo Brasil e em países como Noruega, Inglaterra e Estados Unidos, desde março deste ano vem apostando em uma marca própria, a Café Gourmet Piatã. De forma artesanal, ainda pela estrutura da fazenda, torra - com técnica desenvolvida em duas etapas - os melhores grãos que produz e embala com cuidado o café para espresso ou com moagem para coado, cafeteira moka ou prensa francesa. “Fica a gosto do cliente”, ele brinca. Mas caminha devagar, para não tropeçar, difundindo a marca apenas para escritórios e delicatéssen em Salvador e supermercados nas cidades de Piatã e Seabra.

Na Divino Espírito Santo a união da Santíssima Trindade se concretiza nos prêmios que Michael acumula com orgulho. O ápice veio em 2006, quando o café da fazenda foi premiado campeão no 3º Concurso Nacional Abic de Qualidade do Café. O pequeno produtor tomou gosto pela vitória e desde então está sempre figurando entre os grandes. “O mérito não é só meu”, ele diz, generoso e com brilho nos olhos, e sonha um dia ver suas meninas levando em frente o que começou. “Eu gostaria que elas continuassem para um dia dizer aos meus netos que o pai delas foi um pioneiro.”

Ficha Técnica

Data de publicação: Edição 25 - Setembro/Outubro/Novembro 2009

Veículo: Revista Espresso