Caos visto de cima

Coletivo - Obra de Cassio Vasconcelos

Talvez o título dessa matéria pudesse ser “A Obra de Arte na Era da Reprodutibilidade”. Seria complexo e gentilmente surrupiado do teórico Walter Benjamin, mas ao me deparar com o novo trabalho do fotógrafo Cássio Vasconcellos, uma luz, mentalmente, piscava avisando que aquela era uma obra de arte refletindo a reprodução de tempos difíceis. Coletivo, que entra em cartaz neste sábado, 18, no MIS - Museu da Imagem e do Som, mostra um imenso painel ilustrando 1% da frota de carros da capital paulista. Na escrita parece pouco, mas na presença o resultado pode ser belo, curioso e, claro, assustador. Afinal, são 50 mil carros que dispostos um ao lado do outro lembram ilustração, pixel, qualquer coisa, menos um recorte do real, uma fotografia. Com exclusividade, em entrevista à FS Online, Cássio contou como foi fazer “Coletivo” e, de alguma forma, nos ajudou a compreender como a escala industrial de reprodução reflete na vida e na arte.

FS Online: Cinqüenta mil veículos parados na capital paulista e esse número representa menos de 1% da frota. Te assusta? É a visão do caos ou é um mundo calmo e organizado se visto de cima?
Cássio Vasconcellos:
É impressionante. Você visualiza o que é esse número de carros, eu acho que impressiona. Na verdade, é um recorte de uma realidade. Eu recortei vários carros e reconstruí uma outra realidade. Por um lado é impossível você ter uma cena como a que você vê em “Coletivo”, com os carros todos parados, um ao lado do outro, como se fosse um grande estacionamento, uma grande pista, mas ao mesmo tempo tem uma veracidade ali. Os carros são de verdade, então se existisse um espaço como o retratado neste trabalho, seria possível. Tem vários pátios de carros que me inspiraram para fazer isso. Tem pátio de carro novo, de carro destruído, de polícia. Tem pátio de tudo o que a gente imagina e nem sabe, porque a gente não vê. Só dá para ver de cima. Tem pátio só de Kombi, só de van, só de caminhão, tem pátio só de carro-forte. É uma loucura e é muito curioso também. Eu sempre via esses pátios do alto e resolvi fazer essas imagens, indo nesses diferentes pátios, pescando os carros em cada lugar e aí eu remontei da forma que você pode ver.

Você chamou o trabalho de “Coletivo”. Você acha que estamos mais próximos do sentido de coletividade ou é um mundo individual, cada um ilustrando a cidade com seu automóvel, seu mundo particular?
É um coletivo, mas cada um está na sua individualidade e aí ironizando também o transporte coletivo. Tem essa ironia, mas também tem essa idéia de ser um coletivo individual mesmo.

Com “Coletivo” você buscou questionar – ainda que sendo recortes – o trânsito caótico da cidade com o seu volume de carros ou o trabalho ultrapassa essa leitura?
Ah… Claro que tem a ver, não é?! Tem isso também! Tem várias questões aí. Essa, com certeza, é uma delas. A gente vive no meio desse problema do trânsito, hoje em dia só se fala nisso. É um problema para cada um. Todo mundo sofre com isso. Faz parte do que a gente está vivendo. Isso está na obra. O que me impressiona também é essa coisa do número… Nesse caso de carro, mas não só o carro, me impressiona essa coisa do número, de multiplicação, tudo foi feito pelo homem, a escala é muito grande. Em um sobrevôo eu vejo várias outras cenas assim que me impressionam pelo número. Essa indústria de massa. Até onde dá pra agüentar, sabe?! E tem a ver também com essa coisa de visão de satélite que hoje em dia gente tem mais acesso. Por exemplo, a gente fala desses números de carros é sempre tudo muito abstrato. Cinco milhões a frota de São Paulo, ninguém consegue visualizar isso não é?! Agora tentaram visualizar os $ 700 bilhões que iriam dar para os bancos americanos. O que são $700 bilhões? Nesse trabalho, eu cheguei nos 50 mil. Bem, por que eu escolhi primeiro esse número? Primeiro eu escolhi porque tem uma escala de um tamanho do carro que desse para ver quando tivesse perto, não fosse muito pequeno e também não fosse tão grande para diminuir muito o número de carros. Daí acabou caindo para 50 mil. Se fosse fazer os cinco milhões para tentar visualizar o que são cinco milhões, esses carros seriam muito pequenos, seriam só pontinhos. Mesmo assim com um número tão grande, em um painel tão grande que é esse trabalho, você consegue visualizar só 1% do que a frota só da cidade de São Paulo. E eu gosto disso também de ser um trabalho que você de longe não identifica. Ele parece que de longe é uma ilustração, uma textura, tapeçaria, um monte de pixels… Parece qualquer coisa, menos uma fotografia. Não parece fotografia de jeito nenhum. Você só vê que é fotográfico a um metro de distância. E é legal que daqui da entrada (onde a obra foi instalada) você tem uns 40 metros, então você tem 39 metros até chegar na obra que você não identifica o que é e só no finalzinho que reconhece.

Essa era a ideal inicial? Como você desenvolveu o projeto?
Foi se desenvolvendo assim… A gente sempre acaba se inspirando na verdade, na realidade. Por isso que eu falo que não é uma coisa tão ficcional, é baseado em fatos, apesar de ser uma ficção. Eu tenho uma foto de um monte de carro, em um pátio e daí que me veio a idéia de multiplicar isso em um número absurdo. Só que eram carros todos iguais e formavam um padrão. Eu achei que virava simplesmente uma repetição. Daí eu quis fotografar carros bem diferentes… Carro batido, carro queimado, carro-forte, carro novo, tem de tudo. Tem suas histórias também. Tem até pessoas ali… Super difícil de achar, mas tem e que eu acho bacana existir, mesmo que muito sutilmente. E aí os carros, assim, eles acabam tendo as suas histórias porque não é o mesmo que carro. São vários tipos, várias cores.

Você fotografou a capital por duas horas para “Coletivo”. O trabalho de pós-produção desse material foi mais complicado e demorado que a produção dos cliques? Como foi construir esse mosaico?
Nossa! Foram meses… Eu tive ajuda do Márcio Escudero que fez um tratamento digital, que me ajudou a realizar tecnicamente este trabalho. Então foi recortar os carros, cada um. E eu tinha vários lotes de carros recortados, para depois eu ir montando no computador. A parte de pôr os carros eu fiz e o Márcio foi me dando as soluções, me ajudou a recortar os carros, remontar o asfalto em um tamanho grande, de criar sombra para não soar falso. Soluções para parecer mais real. Tudo isso foi feito em conjunto com ele. Foi um processo meio aleatório. Agora põe um carro amarelo, agora um vermelho, agora uma kombi, porque eu não queria que tivesse padrão. Sabe uma repetição que você vê e diz: “Ah! Aquele pedaço está repetido ali”. Sabe?! Isso eu não queria que acontecesse.

O que te deu mais prazer, fotografar ou pós-produzir? O que foi mais difícil?
Ah… Tudo. São duas coisas que se completam. Eu gosto dos dois. Um precisa do outro. Na verdade, às vezes, você quer ficar vendo as imagens. Você quer parar um pouco de fotografar. Ficar só vendo muito tempo, você acaba querendo produzir. Então você precisa dos dois.

São Paulo vista de cima é mais bonita que vista em terra firme?
Eu gosto dos dois. É diferente. É uma pergunta um pouco difícil, porque São Paulo não tem aquela beleza fácil e natural como o Rio de Janeiro, por exemplo, que é maravilhoso. Rio de Janeiro é um desbunde de bonito. São Paulo é mais cruel. Esse tipo de beleza, na verdade, são poucos os lugares, mas tem uma coisa interessante. A dimensão, uma escala que impressiona. Então é isso que me fascina mais em São Paulo, tanto de cima quanto de baixo do que pela beleza. Pela beleza é difícil. A gente acaba descobrindo muita coisa bacana aqui. Pelo meu trabalho acabo, sempre, procurando coisas interessantes.

Você já fotografou várias cidades do alto, de helicóptero. Qual a que mais te impressionou?
Ah… Tanto São Paulo quanto Nova York, as duas são impressionantes. O número de prédios e a extensão que não termina, vai embora. É tudo muito grande.

Quais as limitações de se fotografar de um helicóptero?
Ah, tem várias… Às vezes você não pode ficar muito baixo. Dependendo do lugar você não pode ficar muito alto, que nem São Paulo que tem um tráfego aéreo muito grande. As limitações são mais, invariavelmente, ao vôo mesmo. De peso, pouca luz, essas coisas são difíceis, mas a gente sempre tenta contornar de alguma forma.

O trânsito de São Paulo tem solução ou é “Coletivo” um recorte, uma visão bela de um caos sem solução? A solução para o trânsito das grandes metrópoles está no alto?
Você está fazendo uma pergunta dificílima, que ninguém sabe responder, não é?! (risos) Mas, de maneira alguma, a solução está no céu. A solução tem que estar aqui embaixo. Lá [em cima] sempre será para muito poucos. É muito complexo o ar. Complexo e caro. Então o tráfego aéreo também não é uma coisa simples de se resolver. No fundo, é a resposta que todo mundo concorda. Todo mundo já sabe, todo mundo fala, mas fazem muito pouco, não é?! O metrô. Esses dias me falaram que São Paulo precisava, no mínimo, fazer 10 estações por ano, para a coisa daqui a 10 anos melhorar um pouco. Como está, está horrível. Daí a média de metrô em São Paulo é um metrô por ano, que não é nada. Se você comparar São Paulo com outras grandes cidades como Paris, Londres, Nova York, é como se aqui a gente não tivesse metrô.

Ficha Técnica

Data de publicação: Outubro 2008

Veículo: Revista Fotosite