Um encontro com o chá

Chanoyu - Foto por gUi Mohallem

O ambiente vazio está cheio de significados. É assim o aposento reservado para sorver o chá na cultura japonesa. O lugar não pretende ser mais do que uma simples cabana, mas é fruto de observações cuidadosas sobre a arquitetura clássica do Japão. A simplicidade está em todo canto e em cada ato revela-se um conceito da tradicional Cerimônia do Chá, ritual iniciado por monges zen-budistas que, de passagem pela China e com a necessidade de se manterem despertos durante as meditações, levaram a bebida ao país nipônico e adaptaram o rito a seus costumes.

Como exceção na “morada do vazio” - nas palavras do autor de O Livro do Chá, Kakuzo Okakura -, somente um arranjo floral chamado de chabana e uma caligrafia que leva o nome de chodo estão dispostos em um nicho para edificação dos praticantes. Fica também um fogareiro que prepara a água da bebida. Antes da sala há um jardim, dando pistas da tranquilidade que vem a seguir. No início do culto - para os japoneses o momento é quase religioso -, os convidados se acomodam nos tatames e aguardam a entrada do anfitrião que irá preparar o elixir de suas vidas no encontro que, já se sabe, é único. Com a pessoa que irá conduzir o evento, entram em cena também os utensílios peculiares para a preparação do chá. Natsumê, chasen, hishaku, chashaku, fukusa, chakin, tana e chawan… A cerimônia pede calma, até para alguém não ficar perdido na tradução. Respectivamente, as ferramentas se apresentam: pote para guardar o chá, batedor de bambu para misturar chá e água, concha de bambu para a água, colher de bambu para pegar o chá, pano de seda para purificação, pano de linho usado para higienização dos apetrechos, bandeja e tigela para o chá.

Além dos muitos objetos, o natsumê guarda o protagonista do encontro. O chá-verde moído chamado matcha é o tesouro da cerimônia. Sem ele não há vazio que se preencha.

SIMPLICIDADE E PACIÊNCIA
A leitura mostra um universo complexo e desconhecido, mas apenas a leitura. Na verdade, o balé de gestos do anfitrião exibe a simplicidade e a paciência típicas do Oriente. Aliás, para participar, as duas virtudes são pré-requisitos, e ser oriental não é. A professora do Centro de Chado Urasenke do Brasil, Bertha Nakao, diz que ultimamente os ocidentais andam mais dedicados que seus compatriotas. Há mais de quinze anos ela leciona a prática - há trinta é assistente do mestre Sokei Hayashi - e explica aos alunos o longo caminho a percorrer. “Ou você curte a paciência ou deixa o chá. Não tem meio-termo”, afirma.

O título de mestre só vem com a maturidade. O aposentado Roberto Neves, por exemplo, desenvolve a arte do chá há dez anos e conta que a graduação muitas vezes leva décadas. Ele brinca dizendo ser um aprendiz e que para “praticar o chá não basta entrar em um aposento e fazer a bebida, é preciso estudar e compreender o que está por trás dos movimentos, dos utensílios, da decoração”. De acordo com Roberto, o arranjo de flor não é feito aleatoriamente. Geralmente ilustra a estação do ano e tem a missão de levar para dentro do espaço um pouco da natureza. Com a caligrafia não é diferente, ela expressa o motivo da reunião e os sentimentos de quem recebe. Cada tatame que cobre o ambiente leva um nome e para pisar neles, o máximo de atenção é pouco. As passadas diferentes servem para que os participantes estejam o tempo todo prestando atenção no que estão fazendo. Uma forma de se conectar com o agora e nada mais.

Chanoyu - Foto por gUi Mohallem

No Ocidente, os detalhes se resumem e tudo vira cerimônia do chá. Para os precursores do momento, no entanto, cada encontro tem um sentido diferente. O evento pode ser chamado de chado (o caminho do chá), chanoyu (água quente para o chá, termo preferido pelos japoneses pelo conceito menos rebuscado), chakai (encontro para chá, usado quando se convida alguém informalmente para tomar a bebida) e chaji (cerimônia completa). Nas duas últimas definições são modos distintos que dependem da ocasião. O chakai é mais simples e nele se oferecem doces típicos e o usucha, um tipo de preparo do chá de sabor mais suave. Já o chaji requer formalidade e algumas etapas. Os convivas aguardam em um jardim anterior à sala do chá e após a espera são servidos de uma refeição da culinária kaiseki, comida leve e tradicional. A seguir, um doce anuncia a chegada da cerimônia de arranjo do carvão que alimenta as chamas do fogareiro e o preparo do chá fraco, o usucha. Por fim, um último rito se aproxima. É hora da cerimônia do chá forte, o koicha. O anfitrião se despede dos convidados e os acompanha até o portão, esperando a virada da esquina. O chaji pode levar horas e atravessar a manhã.

O TEMPO É HOJE
O objetivo de tantos detalhes, por mais que se aponte o contrário, é simples: apreciar a beleza que existe nas coisas corriqueiras. De certa forma, o belo da simplicidade se perdeu em algum momento da história, na pressa do tempo, na cegueira material, em nós mesmos. No século XVI, quando Sen Rikyu, um dos principais mestres do desenvolvimento da chanoyu, indicou condutas para a celebração do chá, sua intenção era menos a exaltação de um produto e mais a compreensão de si mesmo.

Um dos alunos da professora Bertha, o aplicado Leonardo Boiko, não é mestre, mas se expressa com a sabedoria e a experiência que quatro anos de prática lhe ofertaram. Sobre a finalidade do estudo da cerimônia nos seus dias ele vê o sentido utilitário. “Eu sinto que a gente vive muito longe do dia. Você sonha muito com o futuro e idealiza em excesso o passado. Invariavelmente, quando você chega ao futuro, descobre que ele não era tão diferente e bom assim. É sempre quando eu conseguir um emprego, quando eu achar minha namorada, quando eu ficar rico… Esse tipo de filosofia, como a chanoyu, é como se fosse um estalo que te faz estar atento e acordado para o que está acontecendo agora. Chá para mim é uma coisa que deixa a minha vida boa agora e não daqui a cinco anos. A coisa toda da cerimônia é ter um lugar em que você tem que prestar atenção ao máximo em como constrói a casa, como trata as pessoas, como erra, o que diz, o que veste, tudo detalhado para ter harmonia, respeito, pureza e tranquilidade (wa, kei, sei, jaku).”

PARA SABER MAIS
O Livro do Chá, por Kakuzo Okakura - Editora Estação Liberdade, 144 págs.
Centro de Chado Urasenke do Brasil - Rua São Joaquim, 381, 4° andar, sala 44, Liberdade - São Paulo (SP)

Ficha Técnica

Data de publicação: Edição 26 - Dezembro/Janeiro/Fevereiro 2010

Veículo: Revista Espresso