19 / October / 2009
Categorias: resenha, rota do chá indica
“Aqueles que não conseguem sentir a pequenez das grandes coisas em si mesmos tendem a não notar nos outros a grandeza das pequenas coisas.” - Kakuzo Okakura
Li recentemente O Livro do Chá. É uma bela obra escrita por Kakuzo Okakura, em 1906, período em que o Japão vivia profunda crise de identidade cultural após três décadas de contato com os traços do Ocidente. Assim diz a orelha do livro e também as palavras de Okakura ao longo do volume.
Eu pouco sei sobre a cultura dos japoneses. Uma falta, é bem verdade. O que sei é que os hábitos de lá tem me cativado de cá e foi a partir da constatação que adquiri este livro. O autor se debruça sobre detalhes da Chanoyu, a cerimônia japonesa do chá. Tema que me chamou atenção.
Okakura me guiou até o trabalho no último mês e tornou as manhãs mais bonitas, a primavera mais empolgante, o ônibus mais confortável, o caminho menos rotineiro, meu “bom dia” mais gentil. É que Okakura fala sobre chá, mais fala também como o ritual japonês para se tomar a bebida versa sobre gentileza, equilíbrio, respeito, prazer e sentimento.
São sete capítulos dedicados a explicar os detalhes da Chanoyu. Entretanto, quando se aprende sobre a importância do chá e da cerimônia para os japoneses, também se conhece muitos princípios que cercam sua cultura. O Zen, o Tao, a arte e a arquitetura… Falar sobre um hábito de consumo do chá no Japão era como um pretexto para que Okakuro defendesse os muitos costumes de seu país, hoje admirados, respeitados e por vezes até seguidos pelo Ocidente. A defesa não significava proteção, mas compreensão. Penso que para o autor era mais uma questão de buscar o entendimento entre os opostos - xícara e chawan -, respeitando as tradições.
A linguagem é poética, em alguns momentos até feroz, mas me parece apenas um excesso de paixão pelo que se acredita. Coisa boa esse negócio de estar apaixonado. Mostra o que é genuíno e inspira.
Após um mês, as páginas de Okakura - agora minhas - estão um tanto rabiscadas, cheias de vontades escritas, grifos de importância e pensamentos para lembrar. Virou livro de consulta. As palavras do autor estão sempre me cutucando para o bom dia ser mais sincero e os atos mais simples. E para que mais?
O Livro do Chá
…………………………..
Por Kakuzo Okakura
Estação Liberdade
144 págs
R$ 34
ps: sobre a chanoyu, em breve uma postagem dedicada ao ritual

1. LysFreire | October 19th, 2009 at 11:53
Que bonito Hanny.
Tenho a maior dó de rabiscar nos meus livros, mas eu dobro a orelha sempre, rs.
2. Leonardo Boiko | October 19th, 2009 at 13:15
O que se tem que ter em mente sobre o Kakuzō é que ele escreve como um ocidental, não ao estilo japonês («But I am not to be a polite Teaist»…). Isso é porque ele escreveu já em inglês, e não era estranho à inteligentsia européia da época. Eu digo isso não como crítica, e sim como elogio —acredito que, atualmente, o mundo precisa é de mais escritores como ele. O Kakuzō foi um dos primeiros intelectuais japoneses «antropofágicos», i.e., que defendia absorver a cultura do ocidente *e* valorizar a cultura local ao mesmo tempo —uma mensagem que ainda tem valor.
O que eu mais gosto no Book of Tea é que ele trata chanoyu como religião, criando o termo «Teaist» (chá-ista) como um trocadilho de «Taoist». Eu considero o chanoyu uma atividade religiosa, mas no sentido oriental do termo, que é mais ou menos o que a gente chamaria de «poético» (sobre isso ver e.g. R. H. Blyth). Infelizmente a noção ocidental de religião é algo bem diferente, o que levou o establishment do chanoyu a evitar descrever o chá com palavras como Teaism.
3. Leonardo Boiko | October 25th, 2009 at 12:52
Ah, agora que fui ver —você está lendo ele em português? Você TEM que ler no inglês que é o idioma original. Não é sempre que a gente pode curtir um escritor japonês escrevendo em inglês, e a prosa dele é bem gostosa.
4. Hanny | October 25th, 2009 at 20:01
pois é, leo…
li o livro do chá na versão em português.
imagino o quanto perde a tradução.
espero conseguir ler a versão original agora. o texto do kakuzo já me emocionou em português e acho que a escrita em inglês deve valorizar o livro ainda mais.
também gosto do termo teaist como um trocadinho a taoist. aliás, as duas coisas me interessam muitíssimo.
bem, bater papo contigo sobre o tema é tão rico que vale um post rs volte sempre! assim a postagem se completa com as suas palavras!
obrigada pela visita!
bjos
5. Hanny | October 25th, 2009 at 20:03
lys,
veja só ehehe é cada mania né?!
tenho a maior dó de dobrar a orelha, mas fico tranquila quanto a riscar o livro rs
acho que quando a gente grifa, ajuda a memória a se lembrar =)
bjos
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