4 / November / 2009
Categorias: cardápio, chá das cinco
“Em breve, maquinalmente, sobrecarregado pelo dia sombrio e a perspectiva de um triste amanhã, levei aos meus lábios uma colherada de chá onde deixara amolecer um pedaço de madeleine. Mas no mesmo instante em que aquele gole, de envolta com as migalhas de bolo, tocou meu paladar, estremeci, atento o que se passava de extraordinário em mim. Invadira-me um prazer delicioso, isolado, sem noção de causa.”
Confesso que bastaria esse trecho da obra de Proust (Em Busca do Tempo Perdido) para me apaixonar pelas madeleines. Li que o texto está batido. Mas para mim soa novo como a aventura de fazer o belo bolinho.
Gosto do nome e do formato e a lembrança de casa vem à mente vez ou outra quando penso nelas. Uma memória boa das tardes em Itapuã – a de Vila Velha, não de Salvador -, o pé roçando a areia grossa, o cheiro de mar e a coleção de conchinhas. É… As madeleines são como as conchinhas da praia e o prazer da infância.
Mas a lembrança diz também que estamos aqui mais para o chá das cinco e menos para a saudade. Agora que já sabem da inspiração para as madeleines, sugiro uma boa combinação. Para acompanhar as conchinhas charmosas só mesmo ondas de chá. O escolhido foi um misto de especiarias da Tee Gschwendner. Nada agressivo para as doces madalenas, mas que as preencheu de mil sabores. Na Índia leva o nome de Chai e não tem receita única. É uma mistura de especiarias como cardamomo, canela, anis estrelado, gengibre, cravo e pimenta do reino com chás preto e verde ou apenas chá preto. Até fiz uma versão aqui.
Achei que as madeleines mereciam um acompanhante a altura e marcante em visual e sabor. Ficaram perfeitas mergulhadas por instantes na xícara explosiva em muitos gostos.
A receita, surrupiei gentilmente do Daniel, do blog Panela de Cobre. Fiz duas tentativas. A primeira, um fiasco. Imagino que não suportaram o calor do forno pré-aquecido em excesso. Na segunda vez acertei e saí pulando pela casa de felicidade. Essas meninas combinadas de Chai fizeram o meu dia.
Madeleines acompanhadas de Chai
65g de farinha de trigo
65g de manteiga clarificada
65g de açúcar
1 ovo e mais uma gema, em temperatura ambiente
Em uma tigela, bata o ovo mais a gema e o açúcar, até que a mistura fique clara e espumosa. Adicione a farinha peneirada à mistura e mexa com uma espátula. Junte a manteiga e misture. Deixe que a massa repouse por pelo menos 2 horas em um local fresco. Pré-aqueça o forno a 240°C., unte e enfarinhe a forma de madeleines (batendo bem para retirar o excesso de farinha), coloque a massa num saco de confeitar com bico liso e preencha com a massa os alvéolos da fôrma. Leve ao forno e passados 5 minutos, reduza a temperatura para 200°C., isto dará às madeleines a tradicional corcova. Retire do forno quando as madeleines estiverem secas quando espetadas com um palito e quando já estiverem com uma cor dourada. Solte-as da forma ainda quentes, e deixe que repousem nos alvéolos da fôrma, que deve ser mantida perto do fogão, para que não esfrie muito rápido. Se desejar, polvilhe-as com açúcar fino.
Obs.: O meu forno é meio pirado, esquenta muito e rapidamente. Por este motivo, pulei a parte de pré-aquecer e liguei o forno com as madeleines já dentro. Se o seu forno é como o meu, faça o teste.
Obs. 2: Se preferir fazer o seu próprio Chai em vez de comprar a mistura pronta na loja, neste post tem uma receita muito boa. Fica a critério adicionar o leite ou não. Na combinação de hoje, tomei puro, sem leite.
Obs. 3: As forminhas eu comprei na Barra Doce, em Moema (SP), por R$ 13,50, mas enferrujam com facilidade. Prefira as de material anti-aderente ou silicone. São mais caras, mas duram mais.
Fotos por Roberto Seba - www.robertoseba.com



1. Dadí | November 5th, 2009 at 12:06 am
ai Chai, sou fã até não poder mais, mas levei o meu massala [comprado no mundo verde] pra minha avó e ela gostou tanto que tive que deixar lá, ihihihi.
A receita que vc deixou aqui pode ser guardada hanny xuxu?
beijo grande e as madeleines, hmmmmm…
;o)
2. Hanny | November 8th, 2009 at 11:44 pm
dadi,
com avó não dá pra dizer não, não é mesmo?!
rsrs
elas fazem aquela carinha e não tem como negar.
quanto a receita… você pode preparar a mistura e guardar sim. só lembre de guardar bem fechadinho para que os cheiros e sabores não sejam levados pelo ar =)
ah! e não guarde um loongo tempo. o consumo deve ser no máximo em dois meses.
3. Daniel Figueiredo | November 9th, 2009 at 7:12 am
Ficaram lindas as madeleines
Adoro essa passagem das madeleines de Proust, foi graças a este texto que as madeleines se tornaram mais conhecidas no mundo todo. Eu li uma vez que na verdade, não era chá o que ele tomava com as madeleines, e sim uma tisana de folhas de tília, por vezes aromatizada com flores de limoeiro.
Na casa da “tante Léonie”, em Combray, existe um museu dedicado a Proust, quando puder dê uma olhada neste link: http://du-sacre-au-sucre.blogspot.com/2009/10/la-madeleine-dans-le-texte.html há uma foto de lá, uma madeleine ao lado de uma xícara, com uma tisanière ao fundo e folhas de tília prontas para infusão.
4. Daniel Figueiredo | November 9th, 2009 at 7:13 am
Eu não me dou bem com as formas de silicone
5. Hanny | November 17th, 2009 at 2:59 pm
daniel,
graças a sua dica do texto e a sua receita empolguei ainda mais para fazer as madeleines.
que interessante essa história da tisana.
obrigada pelo link! agora vou ter que reproduzir exatamente em busca do prazer de Proust, o chá e as madeleines hehe
bjos!
6. vera conceição wernz da cunha | December 12th, 2009 at 8:56 pm
Olá. Encontrei este site em pesquisa e gostei muito das informações e comentários nele contidos.
7. Hanny | December 14th, 2009 at 6:50 pm
olá vera,
que bom que curtiu o blog.
eu adorei a visita!
apareça mais, viu?!
bjos
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